Você sabia que o primeiro prédio comercial de Cuiabá guarda uma das vistas mais privilegiadas da capital mato-grossense? Inaugurado em 1975, o Palácio do Comércio marcou o início da verticalização da cidade e, até hoje, oferece uma visão panorâmica de 360 graus que encanta quem o visita.
“É uma delícia, eu gosto muito e todas as pessoas que vêm aqui se encantam com essa vista. Você enxerga 360 graus de Cuiabá e, pelo tombamento do Centro Histórico, nós teremos essa vista para sempre no Palácio do Comércio”, afirma Jonas Alves, presidente da ACCuiabá (Associação Comercial e Empresarial de Cuiabá) e subsíndico do edifício.
Arquitetura Moderna e Vista Incomparável
O prédio possui duas sobrelojas, 15 andares e áreas comerciais no nível da Avenida Getúlio Vargas, totalizando 17 pavimentos e 63 conjuntos comerciais que hoje abrigam advogados, contadores e diversas entidades empresariais.
Do 15º andar, rodeado por amplos vidros, Cuiabá fica aos pés do observador. De um lado, surgem os contornos da Chapada dos Guimarães e do Morro de Santo Antônio. Do outro, é possível ver o alinhamento das paróquias São Gonçalo, Nossa Senhora Auxiliadora e Nossa Senhora do Bom Despacho, além do crescimento assimétrico de Várzea Grande.
Em diferentes direções, a vista alcança a escadaria do Morro da Luz, a Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus em posição de “camarote” e a densa arborização da Praça da República. Mais ao longe, entre dois prédios, é possível enxergar parte da Arena Pantanal, o Cemitério da Piedade e o Baalbek Cuiabá, ainda em construção, considerado o prédio mais alto de todo o Centro-Oeste. Segundo Alves, é possível até observar aviões decolando e taxiando na pista do Aeroporto Internacional Marechal Rondon.
Proteção Permanente da Paisagem
Como o prédio é alto e toda a região ao redor é tombada como patrimônio histórico e cultural pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), nada poderá ser construído no entorno, a menos que a legislação seja alterada. Para Alves, o Palácio do Comércio é um símbolo da verticalização da cidade: “Depois dele, vieram todos os outros”.
“O Palácio do Comércio é o melhor endereço que se tem para se estabelecer. Espero que ele continue atual e siga cumprindo sua função, que é abrigar grandes profissionais dentro do Centro Histórico, porque tudo converge para o centro”, afirmou.
Nascido de um Sonho Coletivo
O Palácio do Comércio nasceu do sonho de uma sede própria para a ACCuiabá, fundada em 1912 e considerada a entidade empresarial mais antiga de Mato Grosso. Registros da associação mostram articulações que remontam a 1944, quando teve início a arrecadação de recursos para viabilizar o projeto. À época, foi feito um empréstimo junto aos sócios da ACCuiabá, no valor de CR$ 30 mil (cruzeiros), para completar o montante necessário.
A Associação sempre teve papel central no desenvolvimento econômico de Mato Grosso. De dentro dela surgiram outras entidades empresariais importantes, como a Federação do Comércio e a Federação da Indústria. A entidade chegou a fundar a Construtora do Comércio para disputar licitações públicas e garantir que obras fossem executadas por empresas locais, em um período em que construtoras do Rio de Janeiro e de São Paulo dominavam o mercado.
Segundo Alves, a construção do Palácio foi resultado de uma “união de interesses”. O projeto arquitetônico foi elaborado pela Seteplan Serviços Técnicos Planificados Ltda., de São Paulo, e a obra executada pela Companhia de Engenharia Civeletro Ltda.
“O escritório de São Paulo trouxe uma visão muito moderna para a época. Você imagina esse prédio todo com vidro. É só olhar os prédios de antigamente e comparar com o Palácio do Comércio: o formato e a arquitetura embarcada são algo atual”, disse.
Desafios da Preservação
Atualmente, o principal desafio enfrentado pelo Centro Histórico de Cuiabá, segundo Alves, é o “esvaziamento”. Para ele, a desocupação gera um “processo degenerativo”, que só pode ser revertido com políticas públicas, incentivos fiscais e a reocupação dos espaços.
“O Centro Histórico tem sido esquecido nos últimos anos pelo poder público. Existe um compromisso do governo atual em cuidar disso. Temos discutido muito e feito reuniões constantes”, afirmou.
Entre as propostas debatidas estão a transformação do Morro da Luz em um jardim botânico, a recuperação dos casarões históricos e incentivos fiscais para empresas que se instalarem no Centro Histórico, especialmente dos setores de serviços, tecnologia e educação.
Restrições e Manutenção
O Palácio do Comércio não é um prédio tombado, mas, por estar inserido no entorno protegido, segue uma série de restrições impostas pela legislação federal. As limitações afetam intervenções como letreiros, faixas, cores e exigem autorização prévia para qualquer alteração significativa.
Um exemplo recente foi a troca das esquadrias de aço por alumínio no terceiro andar, processo que levou cerca de dois anos até a liberação do Iphan. Outro é a pintura externa prevista, na qual a associação poderá escolher apenas entre uma paleta de até seis cores.
“A legislação federal que cuida do patrimônio histórico é bem rígida e, de alguma maneira, precisa flexibilizar, modernizar, atualizar. O patrimônio é superimportante, temos que cuidar mesmo, porque a história está ali, mas a gente precisa facilitar até para que esse patrimônio seja preservado”, afirmou.
Planos para o Futuro
Os planos incluem um grande retrofit no prédio. “O nosso sonho é fazer uma revitalização e modernização internamente, porque a estrutura é muito boa e a gente consegue atualizar. O prédio está mais judiado por fora do que por dentro. Por dentro, ele funciona muito bem”, disse Alves.
As melhorias previstas incluem modernização das redes elétrica e hidráulica, substituição das esquadrias de aço por estruturas mais leves em todo o edifício e melhorias na vedação acústica.
Apesar das limitações legais, o prédio passa por manutenções constantes. Nos últimos 15 anos, os elevadores foram modernizados, com troca de maquinários e implantação de sistemas computadorizados, além da adequação às normas do Corpo de Bombeiros.
“O desafio é a ocupação do Centro Histórico, trazer as pessoas e resgatar o interesse. O Palácio do Comércio é um edifício onde as salas são amplas. Hoje, constrói-se salas de 20 ou 30 metros quadrados. Aqui, temos salas de 50, 60, 63 metros. É um espaço muito generoso”, destacou.
Para Jonas Alves, o legado do Palácio do Comércio é abrigar grandes profissionais no coração da cidade e manter vivo o Centro Histórico. “Uma cidade funciona convergindo para o centro”, afirmou. Em pé, firme e ativo, o prédio mais antigo do comércio cuiabano resiste ao tempo e às transformações urbanas.

